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Tomava conta do próprio desespero.Aquilo tinha que estar lá.
Destrancou a porta do escritório,num clique.Eles não chegariam tão cedo,daria tempo...esperava.
Abriu gavetas e gavetas,e a cada resma de papel que ela jogava para o alto,mais sua angústia aumentava.
Andou três passos audíveis até a escrivaninha.Já mal conseguia respirar,tamanha era a pressão dentro de seu peito.Arfou duas,três vezes,e conteve-se por meio segundo.
Tinha que estar ali.
Jogou uma gaveta no chão,papéis.Jogou outra.O baque ecoava dentro das paredes surdamente.
Nada.
Puxou a terceira,que veio ao chão,com estrépito.Engoliu o grito que morava na garganta.
Lá estava.
O metal reluzente de uma pistola .40 atravessou-lhe a alma pelos olhos.Guardou esses próximos quinze segundos admirando-a,degustando-a,sentindo a emoção escorregar como o sangue iminente junto ao grito dentro da boca.Ensaiou um sorriso no canto dos lábios,e uma lágrima no canto dos olhos.Seus dedos finos tanspassaram o punho,sua boca seca abrigou o seu cano,e seu medo chorou um choro.
Era uma estação antiga.Haviam bancos.Havia o piso,a linha de segurança.Tudo era estupidamente cinza.Havia a espera.E não havia ninguém esperando além dela.
Recusava a tentação de fechar os olhos e dormir a sono solto.Tinha nos punhos cerrados uma agonia,uma vontade encarnada no peito e uma preocupação estampada nas bochechas contraídas.A saia que vestia o colo era de um vermelho escuro e rodado,e a blusa que cobria o peito tinha formas desenhadas de pequeninos corações.Os olhos fechavam-se de tal modo que ameaçavam não abrir-se mais tão cedo.
Fechou as pálpebras e mergulhou nas mãos dos raios mornos da manhã
De súbito,uma luz que pingava claridade do lado de lá de seus olhos fechados.Viu o vermelho da luz,as pálpebras ainda caídas.
Levantou-se de um pulo.O coração batia forte,ameaçando cruelmente rasgar os coraçõezinhos.A boca tinha medo de sorrir.
Aí o trem apitou.E ela fechou os olhos,sem querer.Ouviu o som de vários pés cansados se arrastando,as malas pesadas batendo no chão.Abriu os olhos,e não o viu.Tudo tinha tomado a escala de cinza,e seu mundo colorido ali na sua frente não estava.
Foi quando,no auge do desespero,sentiu duas mãos em seus ombros,que a puxaram na direção contrária,e os lábios que se apertaram nos seus e lhe deram,de presente,um beijo.
-Feliz Natal.
E não nevava,e não havia azevinho.
Não consigo reler este texto sem pensar na música que minha mãe colocava pra tocar,eu com meus oito,sete,nove anos.Na Estação,de Adriana Calcanhoto.Meu pai odiava.Eu achava melancólica.Nunca entendi a do leão.(?)Mas aí um dia desses eu pensei nisso,e os meus dedos vomitaram isso o que você acabou de ler.Me esforcei ao máximo para não matar a personagem quando escrevi "havia a linha de segurança,tudo estupidamente cinza".
Clarice morreu ontem,há trinta anos.
Algo talvez esteja afetando meus miolos e talvez por isso eu não estou conseguindo pensar direito.Não ia escrever nada hoje,mas....sei lá.O branco me dá náuseas.E o que eu sinto...Bem.Que melancolia.