Os cabelos lisos cobriam-lhe o rosto de uma maneira sutil,deixando na sua expressão uma certa aura de mistério.Era branco.Branco,pálido e tinha as mãos geladas.
O ponteiro do relógio apontou as oito horas.O sol,atrás do cenário,era recortado pela copa das árvores que ficavam atrás do cemitério.
Anoitecia.
Abaixou os olhos tristes e olhou para os próprios pés,os tênis sujos de lama.Havia algo naquele crepúsculo que fazia seus pés o impulsionarem para frente.
Chegara ao portão.Os olhos levantaram-se e viram no letreiro acima de sua cabeça que ali não era um lugar para pessoas que ainda sabiam respirar.
O portão rangeu,parecendo resistir à sua entrada,parecendo não o querer.
Impulsionou o corpo pela brecha que conseguira abrir entre um portão e outro.Não havia muito trabalho,ele era magro como um caniço e estava acostumado a esgueirar-se por locais apertados.
Conseguira.Arfava um pouco,só um pouco.Seus pés continuavam a puxá-lo mais e mais para dentro,como um impulso instintivo totalmente esquisito.Viu covas e sepulcros que pareciam nascer do chão,a maioria tão antiga que os nomes talhados já haviam se apagado.
O vento vazio afastou seus cabelos do rosto,num sopro.À quase luz do pôr-do-sol,subiu a colina que levava-o até as árvores,no limite do cemitério.No seu pico,viu uma melancólica árvore sem folhas;Esboçou um sorriso ,que contradisse as lágrimas que manchavam o canto dos olhos.
Chegou até a árvore,e a cumprimentou alisando o tronco com a ponta dos dedos frios.Admirou-a durante longos segundos.
-Já faz muito tempo.
Sua voz saiu rouca,quase morta.Nunca combinara tão bem com um cenário quanto combinava com aquele.
Fechou os olhos,tocou a amendoeira e a beijou.
Numa explosão de cores e luzes que se derretiam por entre seus dedos gelados,tornando-os quentes,a amendoeira morta transformou-se numa garota,os cabelos castanhos espalhados pelo rosto e o cheiro de flor.A mão dele tocava-lhe onde pulsava um coração.Abriu a boca,e dela derramou-se uma luz alva e cálida.Seus lábios se confundiam com os dele,e o beijo terminou com ela por entre seus braços,levemente adormecida.
Finalmente a amendoeira florescera.
sábado, 5 de janeiro de 2008
domingo, 23 de dezembro de 2007
Meu breve epílogo sobre o fim de Ana Helena.

Tomava conta do próprio desespero.Aquilo tinha que estar lá.
Destrancou a porta do escritório,num clique.Eles não chegariam tão cedo,daria tempo...esperava.
Abriu gavetas e gavetas,e a cada resma de papel que ela jogava para o alto,mais sua angústia aumentava.
Andou três passos audíveis até a escrivaninha.Já mal conseguia respirar,tamanha era a pressão dentro de seu peito.Arfou duas,três vezes,e conteve-se por meio segundo.
Tinha que estar ali.
Jogou uma gaveta no chão,papéis.Jogou outra.O baque ecoava dentro das paredes surdamente.
Nada.
Puxou a terceira,que veio ao chão,com estrépito.Engoliu o grito que morava na garganta.
Lá estava.
O metal reluzente de uma pistola .40 atravessou-lhe a alma pelos olhos.Guardou esses próximos quinze segundos admirando-a,degustando-a,sentindo a emoção escorregar como o sangue iminente junto ao grito dentro da boca.Ensaiou um sorriso no canto dos lábios,e uma lágrima no canto dos olhos.Seus dedos finos tanspassaram o punho,sua boca seca abrigou o seu cano,e seu medo chorou um choro.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Na Estação.
Era uma estação antiga.Haviam bancos.Havia o piso,a linha de segurança.Tudo era estupidamente cinza.Havia a espera.E não havia ninguém esperando além dela.
Recusava a tentação de fechar os olhos e dormir a sono solto.Tinha nos punhos cerrados uma agonia,uma vontade encarnada no peito e uma preocupação estampada nas bochechas contraídas.A saia que vestia o colo era de um vermelho escuro e rodado,e a blusa que cobria o peito tinha formas desenhadas de pequeninos corações.Os olhos fechavam-se de tal modo que ameaçavam não abrir-se mais tão cedo.
Fechou as pálpebras e mergulhou nas mãos dos raios mornos da manhã
De súbito,uma luz que pingava claridade do lado de lá de seus olhos fechados.Viu o vermelho da luz,as pálpebras ainda caídas.
Levantou-se de um pulo.O coração batia forte,ameaçando cruelmente rasgar os coraçõezinhos.A boca tinha medo de sorrir.
Aí o trem apitou.E ela fechou os olhos,sem querer.Ouviu o som de vários pés cansados se arrastando,as malas pesadas batendo no chão.Abriu os olhos,e não o viu.Tudo tinha tomado a escala de cinza,e seu mundo colorido ali na sua frente não estava.
Foi quando,no auge do desespero,sentiu duas mãos em seus ombros,que a puxaram na direção contrária,e os lábios que se apertaram nos seus e lhe deram,de presente,um beijo.
-Feliz Natal.
E não nevava,e não havia azevinho.
Não consigo reler este texto sem pensar na música que minha mãe colocava pra tocar,eu com meus oito,sete,nove anos.Na Estação,de Adriana Calcanhoto.Meu pai odiava.Eu achava melancólica.Nunca entendi a do leão.(?)Mas aí um dia desses eu pensei nisso,e os meus dedos vomitaram isso o que você acabou de ler.Me esforcei ao máximo para não matar a personagem quando escrevi "havia a linha de segurança,tudo estupidamente cinza".
Clarice morreu ontem,há trinta anos.
sábado, 8 de dezembro de 2007
Ensaio sobre o nada de hoje à noite.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
fora da rotina.
Despertador.Quatro da manhã.Resmungos.Ninguém ao lado.Suspiros.Levanta.Pantufas.
Pés arrastando no assoalho de madeira.Bocejos.Banheiro,sanitário,papel.Roupas.Sem roupas.Chuveiro,sabonete,xampu,chuveiro novamente.Água.Condicionador,três minutos.Água.Escova de dentes,pasta de dentes,espelho.
Espelho refletindo mulher cansada.
Toalha.Chinelos.Roupas.Não,ainda não.Roupão.
Cozinha.Ovos,manteiga,frigideira.Café.Leite.Açúcar.
Quarto.Pente.Secador de cabelos.Maquiagem,roupas.Pasta.
-Aperta as bochechas pra ficar mais viva.-um sussurro pra si.
Sapatos.Porta da frente.Rua.Calçada.
Caminhada até o trabalho.Bom dia,bom dia.
Onde?Onde se meteu?
Desvia o olhar para o outro lado da rua quando ouve o próprio nome.
Marido sorrindo com flores.
Sapatos femininos atravessando a rua correndo.
Carro.Vidro.Asfalto.Rosas vermelhas.Sangue.
Morte.
Pés arrastando no assoalho de madeira.Bocejos.Banheiro,sanitário,papel.Roupas.Sem roupas.Chuveiro,sabonete,xampu,chuveiro novamente.Água.Condicionador,três minutos.Água.Escova de dentes,pasta de dentes,espelho.
Espelho refletindo mulher cansada.
Toalha.Chinelos.Roupas.Não,ainda não.Roupão.
Cozinha.Ovos,manteiga,frigideira.Café.Leite.Açúcar.
Quarto.Pente.Secador de cabelos.Maquiagem,roupas.Pasta.
-Aperta as bochechas pra ficar mais viva.-um sussurro pra si.
Sapatos.Porta da frente.Rua.Calçada.
Caminhada até o trabalho.Bom dia,bom dia.
Onde?Onde se meteu?
Desvia o olhar para o outro lado da rua quando ouve o próprio nome.
Marido sorrindo com flores.
Sapatos femininos atravessando a rua correndo.
Carro.Vidro.Asfalto.Rosas vermelhas.Sangue.
Morte.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Partida.
Um,dois,três passos.
Plec,plec,plec.
Respiro,inspiro,expiro.Prendo.Solto.
Quatro,cinco,seis passos.Dedos batendo e se debatendo na grade do corredor.
Sento.Converso.O nó preso na garganta.Abraço.Digo tchau.
Aula chata.Dor de cabeça,dor de dentro de mim.
E amanhã ela se vai,de madrugada,voando contra o vento,contra mim,contra o vento.
E aí eu morro viva,esperando a espera de você voltar.
Vá,mas volta logo.
Plec,plec,plec.
Respiro,inspiro,expiro.Prendo.Solto.
Quatro,cinco,seis passos.Dedos batendo e se debatendo na grade do corredor.
Sento.Converso.O nó preso na garganta.Abraço.Digo tchau.
Aula chata.Dor de cabeça,dor de dentro de mim.
E amanhã ela se vai,de madrugada,voando contra o vento,contra mim,contra o vento.
E aí eu morro viva,esperando a espera de você voltar.
Vá,mas volta logo.
Do sétimo Andar.
Parou na frente da janela,a mão tremia.A mão segurou a madeira,o pé estacionou no mármore do parapeito.
O primeiro impulso.
Subiu com certa dificuldade,e ajeitou-se até sentar,também com dificuldade.Tinha cãimbra nas pontas dos dedos,tamanha era a força que usava para segurar-se.
Esse era o último esforço inútil de viver.
Fechou os olhos,apoiou a cabeça num canto.A falta de um ombro.
Não chorou.Não chorou lágrimas,não chorou pranto,não chorou nada.Não havia mais o que se chorar.
Talvez nunca houvesse...
-Eu sou sozinha.
O vento soprou,mudo,sem resposta.Espalhou os cabelos no seu rosto,que ela não teve a preocupação de ajeitar.Os pés balançavam furiosamente,desemparelhados e fora de ritmo.
O sangue parecia estar prestes a explodir as suas veias e artérias,com a adrenalina a esgueirar-se sorrateira dentro do corpo dela.A emoção escorregava por entre seus dedos,boca,garganta,olhos,coração.
É só mais um impulso,vamos.Quem vai notar?
Quem vai perceber?
Quem vai se importar?
Aí o vento gritou:
Ninguém.
O primeiro impulso.
Subiu com certa dificuldade,e ajeitou-se até sentar,também com dificuldade.Tinha cãimbra nas pontas dos dedos,tamanha era a força que usava para segurar-se.
Esse era o último esforço inútil de viver.
Fechou os olhos,apoiou a cabeça num canto.A falta de um ombro.
Não chorou.Não chorou lágrimas,não chorou pranto,não chorou nada.Não havia mais o que se chorar.
Talvez nunca houvesse...
-Eu sou sozinha.
O vento soprou,mudo,sem resposta.Espalhou os cabelos no seu rosto,que ela não teve a preocupação de ajeitar.Os pés balançavam furiosamente,desemparelhados e fora de ritmo.
O sangue parecia estar prestes a explodir as suas veias e artérias,com a adrenalina a esgueirar-se sorrateira dentro do corpo dela.A emoção escorregava por entre seus dedos,boca,garganta,olhos,coração.
É só mais um impulso,vamos.Quem vai notar?
Quem vai perceber?
Quem vai se importar?
Aí o vento gritou:
Ninguém.
Assinar:
Comentários (Atom)