sexta-feira, 30 de novembro de 2007

fora da rotina.

Despertador.Quatro da manhã.Resmungos.Ninguém ao lado.Suspiros.Levanta.Pantufas.
Pés arrastando no assoalho de madeira.Bocejos.Banheiro,sanitário,papel.Roupas.Sem roupas.Chuveiro,sabonete,xampu,chuveiro novamente.Água.Condicionador,três minutos.Água.Escova de dentes,pasta de dentes,espelho.
Espelho refletindo mulher cansada.
Toalha.Chinelos.Roupas.Não,ainda não.Roupão.
Cozinha.Ovos,manteiga,frigideira.Café.Leite.Açúcar.
Quarto.Pente.Secador de cabelos.Maquiagem,roupas.Pasta.
-Aperta as bochechas pra ficar mais viva.-um sussurro pra si.
Sapatos.Porta da frente.Rua.Calçada.
Caminhada até o trabalho.Bom dia,bom dia.
Onde?Onde se meteu?
Desvia o olhar para o outro lado da rua quando ouve o próprio nome.
Marido sorrindo com flores.
Sapatos femininos atravessando a rua correndo.
Carro.Vidro.Asfalto.Rosas vermelhas.Sangue.
Morte.


terça-feira, 27 de novembro de 2007

Partida.

Um,dois,três passos.
Plec,plec,plec.
Respiro,inspiro,expiro.Prendo.Solto.
Quatro,cinco,seis passos.Dedos batendo e se debatendo na grade do corredor.
Sento.Converso.O nó preso na garganta.Abraço.Digo tchau.
Aula chata.Dor de cabeça,dor de dentro de mim.
E amanhã ela se vai,de madrugada,voando contra o vento,contra mim,contra o vento.
E aí eu morro viva,esperando a espera de você voltar.
Vá,mas volta logo.

Do sétimo Andar.

Parou na frente da janela,a mão tremia.A mão segurou a madeira,o pé estacionou no mármore do parapeito.
O primeiro impulso.
Subiu com certa dificuldade,e ajeitou-se até sentar,também com dificuldade.Tinha cãimbra nas pontas dos dedos,tamanha era a força que usava para segurar-se.
Esse era o último esforço inútil de viver.
Fechou os olhos,apoiou a cabeça num canto.A falta de um ombro.
Não chorou.Não chorou lágrimas,não chorou pranto,não chorou nada.Não havia mais o que se chorar.
Talvez nunca houvesse...
-Eu sou sozinha.
O vento soprou,mudo,sem resposta.Espalhou os cabelos no seu rosto,que ela não teve a preocupação de ajeitar.Os pés balançavam furiosamente,desemparelhados e fora de ritmo.
O sangue parecia estar prestes a explodir as suas veias e artérias,com a adrenalina a esgueirar-se sorrateira dentro do corpo dela.A emoção escorregava por entre seus dedos,boca,garganta,olhos,coração.
É só mais um impulso,vamos.Quem vai notar?
Quem vai perceber?
Quem vai se importar?
Aí o vento gritou:
Ninguém.

Avenida Urquiza Leal.

Caminhou de lá pra lá.O ritmo indefinido,diferente,original.Um ritmo que quase ninguém gostava.
Ela era como uma música desritmada.
Caminhou,devagar,olhando tudo.Olhou o banco,olhou o chão,olhou as pessoas,olhou os cabelos voando ao redor dos olhos.Olhou os próprios pés e o asfalto,e viu muito mais naquela avenida do que você veria.
Ela viu prédios sujos de limo,com seus olhos manchados de tinta.Viu o papel manchado de tinta,palavras.Viu o chão manchado de tinta,a mão que escrevia manchada de tinta.Viu sementes no chão,a grama nascendo dos paralelepípedos.Viu o amor em uma esquina,o ódio em um semblante,a saudade em uma porta,o riso em outras duas.Viu rodas e pneus que passavam ligeiros,e viu em sua cabeça os milhões de destinos que eles haviam visitado ou haviam de visitar.Viu o som de risos daquela praça vazia,o gosto de beijo daquela praça vazia,o escorrer de lágrimas daquela praça vazia.
Ela viu muito mais naquela avenida do que você veria.
Porque os olhos dela só traduzem informações pra poesia.

domingo, 18 de novembro de 2007

Fatídico.

Esperava sentada,as pernas curtas e pálidas balançando de modo acidentalmente infantil,o que disfarçava sua falta de inocência.Inocência perdida também por acidente.
Levanta os olhos pro alto,pro céu estupidamente azul,que,manchado de gotas brancas que os homens chamavam nuvens,rodeavam-na de uma maneira que a deixava sem saída.O vento passa forte,mas tão forte perto daquele porto que ameaçava cruelmente arrancar-lhe o chapéu vermelho da cabeça.O vestido cor de sangue,as anáguas brancas balançando,uma cor furtante e ofegante no meio de tanto ciano.Ela ainda estava esperando.
Os olhos.Ah!os olhos.Um profundo carvalho,um profundo calvário,uma profunda agonia.Ela ainda esperava.Os sapatos de vinil balançavam,um batendo no outro de leve.
Toc,toc,toc.O som dos sapatos batendo pomposamente na pedra branca do chão.Assustou-se,quase se derramando do banco de madeira,e suas bochechas rosadas comprimiram-se num sorriso.
Um sorriso que derramou-se três segundos depois,quando olhou para frente e viu o vento passar por cima de seus olhos.
Só o vento.