domingo, 23 de dezembro de 2007

Meu breve epílogo sobre o fim de Ana Helena.


Tomava conta do próprio desespero.Aquilo tinha que estar lá.
Destrancou a porta do escritório,num clique.Eles não chegariam tão cedo,daria tempo...esperava.
Abriu gavetas e gavetas,e a cada resma de papel que ela jogava para o alto,mais sua angústia aumentava.
Andou três passos audíveis até a escrivaninha.Já mal conseguia respirar,tamanha era a pressão dentro de seu peito.Arfou duas,três vezes,e conteve-se por meio segundo.
Tinha que estar ali.
Jogou uma gaveta no chão,papéis.Jogou outra.O baque ecoava dentro das paredes surdamente.
Nada.
Puxou a terceira,que veio ao chão,com estrépito.Engoliu o grito que morava na garganta.
Lá estava.
O metal reluzente de uma pistola .40 atravessou-lhe a alma pelos olhos.Guardou esses próximos quinze segundos admirando-a,degustando-a,sentindo a emoção escorregar como o sangue iminente junto ao grito dentro da boca.Ensaiou um sorriso no canto dos lábios,e uma lágrima no canto dos olhos.Seus dedos finos tanspassaram o punho,sua boca seca abrigou o seu cano,e seu medo chorou um choro.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Na Estação.


Era uma estação antiga.Haviam bancos.Havia o piso,a linha de segurança.Tudo era estupidamente cinza.Havia a espera.E não havia ninguém esperando além dela.
Recusava a tentação de fechar os olhos e dormir a sono solto.Tinha nos punhos cerrados uma agonia,uma vontade encarnada no peito e uma preocupação estampada nas bochechas contraídas.A saia que vestia o colo era de um vermelho escuro e rodado,e a blusa que cobria o peito tinha formas desenhadas de pequeninos corações.Os olhos fechavam-se de tal modo que ameaçavam não abrir-se mais tão cedo.
Fechou as pálpebras e mergulhou nas mãos dos raios mornos da manhã
De súbito,uma luz que pingava claridade do lado de lá de seus olhos fechados.Viu o vermelho da luz,as pálpebras ainda caídas.
Levantou-se de um pulo.O coração batia forte,ameaçando
cruelmente rasgar os coraçõezinhos.A boca tinha medo de sorrir.
Aí o trem apitou.E ela fechou os olhos,sem querer.Ouviu o som de vários pés cansados se arrastando,as malas pesadas batendo no chão.Abriu os olhos,e não o viu.Tudo tinha tomado a escala de cinza,e seu mundo colorido ali na sua frente não estava.
Foi quando,no auge do desespero,sentiu duas mãos em seus ombros,que a puxaram na direção contrária,e os lábios que se apertaram nos seus e lhe deram,de presente,um beijo.
-Feliz Natal.
E não nevava,e não havia azevinho.




Não consigo reler este texto sem pensar na música que minha mãe colocava pra tocar,eu com meus oito,sete,nove anos.Na Estação,de Adriana Calcanhoto.Meu pai odiava.Eu achava melancólica.Nunca entendi a do leão.(?)Mas aí um dia desses eu pensei nisso,e os meus dedos vomitaram isso o que você acabou de ler.Me esforcei ao máximo para não matar a personagem quando escrevi "havia a linha de segurança,tudo estupidamente cinza".
Clarice morreu ontem,há trinta anos.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Ensaio sobre o nada de hoje à noite.


Algo talvez esteja afetando meus miolos e talvez por isso eu não estou conseguindo pensar direito.
Não ia escrever nada hoje,mas....
sei lá.O branco me dá náuseas.
E o que eu sinto...
Bem.
Que melancolia.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

fora da rotina.

Despertador.Quatro da manhã.Resmungos.Ninguém ao lado.Suspiros.Levanta.Pantufas.
Pés arrastando no assoalho de madeira.Bocejos.Banheiro,sanitário,papel.Roupas.Sem roupas.Chuveiro,sabonete,xampu,chuveiro novamente.Água.Condicionador,três minutos.Água.Escova de dentes,pasta de dentes,espelho.
Espelho refletindo mulher cansada.
Toalha.Chinelos.Roupas.Não,ainda não.Roupão.
Cozinha.Ovos,manteiga,frigideira.Café.Leite.Açúcar.
Quarto.Pente.Secador de cabelos.Maquiagem,roupas.Pasta.
-Aperta as bochechas pra ficar mais viva.-um sussurro pra si.
Sapatos.Porta da frente.Rua.Calçada.
Caminhada até o trabalho.Bom dia,bom dia.
Onde?Onde se meteu?
Desvia o olhar para o outro lado da rua quando ouve o próprio nome.
Marido sorrindo com flores.
Sapatos femininos atravessando a rua correndo.
Carro.Vidro.Asfalto.Rosas vermelhas.Sangue.
Morte.


terça-feira, 27 de novembro de 2007

Partida.

Um,dois,três passos.
Plec,plec,plec.
Respiro,inspiro,expiro.Prendo.Solto.
Quatro,cinco,seis passos.Dedos batendo e se debatendo na grade do corredor.
Sento.Converso.O nó preso na garganta.Abraço.Digo tchau.
Aula chata.Dor de cabeça,dor de dentro de mim.
E amanhã ela se vai,de madrugada,voando contra o vento,contra mim,contra o vento.
E aí eu morro viva,esperando a espera de você voltar.
Vá,mas volta logo.

Do sétimo Andar.

Parou na frente da janela,a mão tremia.A mão segurou a madeira,o pé estacionou no mármore do parapeito.
O primeiro impulso.
Subiu com certa dificuldade,e ajeitou-se até sentar,também com dificuldade.Tinha cãimbra nas pontas dos dedos,tamanha era a força que usava para segurar-se.
Esse era o último esforço inútil de viver.
Fechou os olhos,apoiou a cabeça num canto.A falta de um ombro.
Não chorou.Não chorou lágrimas,não chorou pranto,não chorou nada.Não havia mais o que se chorar.
Talvez nunca houvesse...
-Eu sou sozinha.
O vento soprou,mudo,sem resposta.Espalhou os cabelos no seu rosto,que ela não teve a preocupação de ajeitar.Os pés balançavam furiosamente,desemparelhados e fora de ritmo.
O sangue parecia estar prestes a explodir as suas veias e artérias,com a adrenalina a esgueirar-se sorrateira dentro do corpo dela.A emoção escorregava por entre seus dedos,boca,garganta,olhos,coração.
É só mais um impulso,vamos.Quem vai notar?
Quem vai perceber?
Quem vai se importar?
Aí o vento gritou:
Ninguém.

Avenida Urquiza Leal.

Caminhou de lá pra lá.O ritmo indefinido,diferente,original.Um ritmo que quase ninguém gostava.
Ela era como uma música desritmada.
Caminhou,devagar,olhando tudo.Olhou o banco,olhou o chão,olhou as pessoas,olhou os cabelos voando ao redor dos olhos.Olhou os próprios pés e o asfalto,e viu muito mais naquela avenida do que você veria.
Ela viu prédios sujos de limo,com seus olhos manchados de tinta.Viu o papel manchado de tinta,palavras.Viu o chão manchado de tinta,a mão que escrevia manchada de tinta.Viu sementes no chão,a grama nascendo dos paralelepípedos.Viu o amor em uma esquina,o ódio em um semblante,a saudade em uma porta,o riso em outras duas.Viu rodas e pneus que passavam ligeiros,e viu em sua cabeça os milhões de destinos que eles haviam visitado ou haviam de visitar.Viu o som de risos daquela praça vazia,o gosto de beijo daquela praça vazia,o escorrer de lágrimas daquela praça vazia.
Ela viu muito mais naquela avenida do que você veria.
Porque os olhos dela só traduzem informações pra poesia.

domingo, 18 de novembro de 2007

Fatídico.

Esperava sentada,as pernas curtas e pálidas balançando de modo acidentalmente infantil,o que disfarçava sua falta de inocência.Inocência perdida também por acidente.
Levanta os olhos pro alto,pro céu estupidamente azul,que,manchado de gotas brancas que os homens chamavam nuvens,rodeavam-na de uma maneira que a deixava sem saída.O vento passa forte,mas tão forte perto daquele porto que ameaçava cruelmente arrancar-lhe o chapéu vermelho da cabeça.O vestido cor de sangue,as anáguas brancas balançando,uma cor furtante e ofegante no meio de tanto ciano.Ela ainda estava esperando.
Os olhos.Ah!os olhos.Um profundo carvalho,um profundo calvário,uma profunda agonia.Ela ainda esperava.Os sapatos de vinil balançavam,um batendo no outro de leve.
Toc,toc,toc.O som dos sapatos batendo pomposamente na pedra branca do chão.Assustou-se,quase se derramando do banco de madeira,e suas bochechas rosadas comprimiram-se num sorriso.
Um sorriso que derramou-se três segundos depois,quando olhou para frente e viu o vento passar por cima de seus olhos.
Só o vento.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

sonho.

-Ele me promete coisas bonitas.Aí os olhos dele brilham.Parece até sonho,quando a gente tá quase acordando,sabe?Aquela hora que a gente percebe que não é de verdade e que vai acordar.Aquela senção no peito....sabe?Aquela hora que a gente torce rpa que não acabe,e de repente a gente tá na cama de novo. Só que sem a parte de acordar... Só o sonho com bordas transparentes de tela de cinema.

meu manto.


"Querido irmão;

Não se preocupe tanto comigo.Dói em mim ver você me procurando.Onde estou,estou bem,apesar da saudade que pesa tanto.
Estou num lugar calmo...sopra um vento forte de vez em quando,mas o que eu queria que vocês vissem,são as folhas no outono.Lembra quando a gente brincava quando o papai juntava todas aquelas folhas que caíam no quintal?Então.Só que é lindo,eu vejo elas nascendo e caindo,nem percebo o tempo passar.
Tem pássaros aqui.Insetos.Aprendi a conviver,apesar de muita coisa caminhar no meu rosto.Só lembro de você e seu medo de aranhas,sabia?
Outro dia uma garota caminhava por aqui,e deixou cair a fita do cabelo.Ela tinha cheiro de chocolate,sabe?daqueles que a mamãe derretia pra a gente comer com bolo.Ah!se eu tivesse olhos estaria chorando tanto.A fita está aqui comigo,é como se aquela menina fosse minha amiga.Sinto tanta inveja,ela pode caminhar,e pode encontrar quem ama.
Sinto saudade de vocês,e de você,meu pequeno,que contava histórias de piratas e não me deixava dormir.



Ana."

Fuga.


Meu medo se borra além de meus contornos.Medo do futuro,de ser o que cresce aqui dentro.Medo disso que cresce aqui.
Disto,entre meus pulmões,que cresce,que me sufoca.
Não sei se vale a pena continuar,e estar totalmente fraca e machucada no final.

Falência.


Já haviam dezessete minutos que eu poderia ter-me jogado lá de cima.
Entretanto,eu continuava imóvel,as articulações rangendo.
Imóvel.
Podia ficar lá a vida toda?Não,não podia.Aquela era a minha decisão,quisesse eu ou não.
Devo desistir?

o despertar.


Os primeiros raios da manhã entravam intrusamente pela janela do quarto.Primeiro,lamberam-lhe o rosto,depois,um pouco dos ombros.Seus pés estavam envolvidos nos dele,que eram quentes,e brincavam,mexendo os dedos de leve.'Que pés frios',falara ele,sorrindo,segurando a mão gelada e abraçando-a junto ao peito,antes de caírem no sono.
sentiu a luminosidade nos cílios e já se via acordando,como se caísse em cima de si mesma.
A cama estava macia,e seus pés não estavam mais frios.O abraço era quente.A luz que a arrancara de seu sonho em branco era pálida,e tinha algo de morno.
As primeiras chamas do dia.

Tudo o que eu quero é você comigo

Meu choro é o suicídio das palavras.


Não sai mais nada.Nada de nada,não saem palavras,só água salgada dos olhos e o ar da respiração.Nada mais.
Vejo gotas que escorregam,suicidam-se,quebrando frases do texto ao meio,derretendo palavras.Não entendo esse calafrio na espinha,que sobe e desce dando-me certa vivacidade.A realidade tenta me sugar,e eu me prendo à caneta,papel e lágrimas.
Suspiros não adiantam,consolos não me tiram daqui.
Me tranquei nesse mundo que criei.
Com caneta,papel e lágrimas.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

persuasão.


Falam que eu observo pouco,que eu vôo demais.Mas é o contrário...Eu observo demais.E me perco nos comentários próprios sobre o que está ao meu redor.
Tem momentos...tem momentos que bem...nada parece estar fora do lugar.Tudo perfeito,na ordem sinfônica que as coisas devem obedecer.E eu fico observando...fecho os olhos,sendo embalada por aquela música surda,o sorriso estampado,a respiração forte...Nada dura mais que dois segundos,e tudo parece estar consertado e concertado,por séculos,milênios,anos-luz.
E outras horas,no perder-se de dias e dias,reina o caos.Gritos,barulho,nada me deixa em paz.Nada parece estar ao meu favor,nada parece...obedecer àquela sinfonia,que toca agora bem triste,e alta,embora ninguém possa ouví-la!-ela é surda,lembra-se?
tudo se perde,tudo fica borrado,sem cor e confuso.
às vezes eu sinto isso,e às vezes é o tempo todo.
só que pessoas,geralmente,não me entendem.



sexta-feira, 14 de setembro de 2007

atração magnética.


Um sorriso,cheio de íons negativos.Nos olhos chamativos como ímãs,na boca úmida de um beijo,nas palavras firmes e decididas.
Ela bagunçara com a minha saúde mental,me derrubara,enfraquecera e esquartejara com apenas um toque leve dos lábios.
E eu...mas que tolo!
Não consegui rasgar um 'eu te amo' em seu ouvido.

Na escada;


As palavras que derramara,as críticas que dissera,o carinho que pranteara,a dor que recitara...
Poesia,poesia,poesia.Feita de poesia.
De seus dedos pingavam estrofes,de sua boca,derretia-se magia.Os olhos eram magnéticos,me prendiam junto com o caminhar sobre o assoalho rachado.Eu quase flutuava enquando ecoavam no silêncio meus passos,até o contraponto.
Um,dois,três passos,e meu corpo estava parado.
Por hipnose.
Eu esperei,esperei,e esperei de tudo.Desde dentes de leão no outono até chacinas e execuções sangrentas.
De presente,ela me deu seu singelo silêncio,e passou por mim sem dizer palavra.

sobre o que sinto agora,nesse segundo,antes que se acabe.


,então eu sorri,seca por dentro.Os olhos queimavam por baixo das pálpebras,e não consegui alcançar algum pedido ou afirmação que me justificasse.Porque tal não existia.
Sorri,seca,morta,sem ar.Não havia nada dentro de mim,nunca houve.
era tudo sobre mim,era tudo contra mim.e o nada contra mim,também.
Nunca entendi porque escrevo palavras para o vazio.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

mon amour, ne me laissent jamais seul.


estou aqui,molhada de chuva,quebrada aos pedaços,implorando,pedindo,ajoelhada,rezando.Junto a esta cama de hospital,ouvindo aparelhos ressonantes apitarem tua vida.Ah,amor!queria que soubesse mais ainda como te amo.Queria que ficasse aqui comigo,pra sempre,rindo de mim,de você,de nós.Nada será o mesmo sem teus olhos pousados nos meus,sem você do meu lado,sem você comigo.Ah,meu amor!lembra de nossos versos?nossas músicas,nossos sonhos,nosso futuro?nosso,meu amor,do qual nunca desistirei.
Mas eu preciso de você aqui,pra realizá-lo,meu amor.mon amour,mon amour.Nunca me deixa,nunca me perdoarei.

mein liebe,nie lassen mich.


ao mesmo tempo calor,e frio,e felicidade,e tristeza,e medo,e tudo possível quando o coração bate forte quando te vejo,e fica fraco quando está longe.Como se fosse sangue escorrendo de minha garganta quando digo meu adeus,como se fosse mel em meus lábios quando neles se deitam os teus.Como uma claustrofóbica,como uma hipocondríaca,como uma louca fico, sem teu ar junto do meu,sem tuas mãos em minhas mãos.Tudo o que eu quero,tudo o que eu preciso,são suas palavras sussurradas bem baixinho em meu ouvido,tão baixinho que tudo mude e fique em silêncio,que tudo se cale e se faça calar,só pra tua voz ecoar nas paredes.Arrancaste um pedaço de minh'alma,e deixaste uma peça da tua comigo...E não importa o desespero ou as palavras de saudade que eu recite,sei que estás comigo,e que sempre estarás,pois minha parte está contigo,e a sua,dentro de mim.
lebewesen eine,einzig eine drinnen von übrig.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Perdona-me.


Era manhã,ainda.O sol estava meio que inclinada,e aquele senhor de 70,75 anos estava sentado no sofá de sua casa.Era dia dos pais.
O telefone ainda não havia tocado,era aquele puro silêncio.
Seu neto vinha chamá-lo.Lhe dera um abraço apertado,e o puxara pela mão.Ele sempre foi ágil e vivaz,nunca teve problemas com locomoção.Foi correndo até a casa de sua filha,ao lado.
Sua neta estava naquele computador,com um sorriso enorme.lágrimas nos olhos.
-vem ver o que tio mandou pra o senhor,vô.
e lá estava,o que ele esperava.
Saiu chorando,cambaleando.Agradecido.Reconhecido.
E o perdão não foi falado,mas sentido.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Como a primeira vez.


Seus espelhos castanhos miravam o céu que brilhava acima do teto solar.Era noite,as estrelas faiscavam como fogo.Ao seu redor,começava o bosque,mais calmo que o normal.Ouvia-se apenas o barulho-silêncio das cigarras ao longe,e uma música antiga no som do carro.
Quando seu pescoço começou a doer de tanto olhar pra cima,desviou o olhar para o lado.Seu foco recaiu-se sobre o telefone celular,e um sorriso se esboçou no canto direito de sua boca.Suspirou uma esperança e olhou as horas.
Duas e quinze.E nada.
Fechou os olhos ardidos.E esperou.

...

O tamborilar dos dedos no vidro acordou-o de súbito.Meio zonzo,olhou o pulso;Duas e quarenta e cinco.
O rosto pálido e de sorriso meio contido encarava-o com olhos atentos do lado de fora.Ela tamborilou os dedos no vidro novamente,de ele.Ele sorriu.
-Pensei que você nunca viria-diz ele,abrindo a porta do carona.Ela sentou-se,e ele logo sentiu aquela velha sensação de conforto de quando o cheiro de flores do corpo dela se fazia presente.Fechou os olhos,e dessa vez sorriu aberto,com os dentes brancos à mostra.
Ela encarava as próprias mãosque seguravam a barra da saia rodada,cheia de nervosismo.
-Está frio..-falou ele,meio cabisbaixo.
-Me desculpa...te fiz esperar todo esse tempo.Me perdoa.
-Você não precisa pedir desculpas Ana,nunca precisou.Eu nunca vou ter raiva de você.
-Eu estava com medo.Ainda estou...-falou Ana sincera,mas relutante.
-Bem...Quer que eu te deixe em casa?-ele pergunta,a voz meio ferida.
-Não!eu quero ficar...com você.
Foi aí que ela virou o rosto na direção dele,e percebeu que ele falava juntinho de seu ouvido.Seus narizes roçaram um no outro delicadamente,e seus lábios de leve,encostaram-se,seu rosto pegando fogo.
Sentiu uma mão em seu rosto.
E um beijo.
Começava a chover,e o barulho dos pingos lhes dava certa sensação de sonolência.
Suas pálpebras fecharam-se,as mãos dadas.
Nenhum dos dois havia tirado o anel de noivado.



Para Rebeca Lopes.

Para Tia Carol.


Era fim de ano;A terapia inchava seu corpo,e enfraquecia seus ossos,e os produtos químicos derrubavam seus cachos.
Mas ela sorria.Ela tinha vindo,e ela sorria.
E ela fez doces;Divinos!Divinos!Dignos de uma deusa.
Da deusa Carolina.
E ela guiou minha mão,e me ensinou em um segundo o que levaria anos de prática sozinha...
E estava tão corroída que cozinhava sentada,respirando com certa dificuldade.
Era tarde.Nós conversávamos na cama.Estendi minha tiara,um presente.Ela riu,brincou,colocou nos cabelos fracos.
E foi embora;o carro foi embora,e saí com a tiara na mão,pra porta;mas ela já tinha ido embora.
e eu torci,como eu torci,pra que ela voltasse,e que ela viesse e me abraçasse...
como eu torci.
meses depois me avisaram que aquele sorriso havia partido.

a shot in a head.


o mais gelado metal atravessando sua caixa craniana,estiçalhando todas as suas lembranças,todos os seus sonhos,e seus medos,e seus rancores.
a bala atravessa mais que sua carne e seus ossos,e ela espalha mais do que sangue e artérias,e a sua decisão é mais que única,seja ela verdadeira ou não.real ou não;
é o que você escolhe agora,e que nunca vai mudar.
como um tiro na cabeça.
o sangue espalhado vale a pena?

terça-feira, 24 de julho de 2007

além.



olhei para o mar,a espuma.Lá de cima,tudo parecia tão distante...o azul-escuro engolindo as pedras que iam cada vez mais se decompondo,desintegrando,até tranformar-se na areia fina da praia.O céu se confundia com a água na linha do horizonte,e as nuvens douradas pareciam dançar sobre a superfície.
Passei a me sentir tonta e sem ar.
cambaleei,tropecei,escorreguei.
e eu pedi à imensidão pra que ela me engolisse.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

reflexão.


E a gente caminha nas ruas.Uma unidade,um ser,uma vida.Várias unidades,vários seres,várias vidas.E no fim,não importa.Voce acaba sendo só mais um na multidão.E a multidão não pára.
Sou apenas uma pessoa,numa casa,numa cidade,num estado,em um país,num continente,encaixado num planeta,em uma gláxia pequenina,que se perde em explosões de gás e supernovas luminosas e faiscantes.
e é nisso em que eu penso quando quero me esconder de meus problemas.

raiva.


e eu fiquei pensando em toda a raiva que eu já tinha sentido nas ultimas duas horas....aquela coisa toda que eu escondo,debaixo do tapete,que nem um trabalho mal acabado.o processo mal resolvido.início,meio,sem fim,sem conclusão.aí me tocaram e eu me senti explodindo.

Meu Melhor Amigo.


Não queiras roubar o meu silêncio de mim,ele é a minha única companhia desde que aportei aqui.As águas lá embaixo eram salgadas como lágrimas,e,de congelar os ossos.E eles estão frágeis,não os toque,não me toque.Minha pele pálida não necessita de teus mil sóis de falsa felicidade.
Não quero cobertores,prefiro assim.Não venhas com tua Palavra,tentar convencer-me.Tu já convenceste quem estava do meu lado,no frio,e eles se foram.Correram para o teu calor de falso veraneio.Estão cegos.CEGOS!o teu sol queimou seus belos olhos.Incendiaram-se em ti.
Então não tentes roubar meu silêncio,pois quando desisti de gritar só ele me restou.

suicídio.


A necessidade de auto-vingança.Meu tato precisava sentir a dor,tocá-la,a ponto de sentir seu gosto.
Era o mundo,aqui dentro,desmoronando.Cada peça que eu havia moldado com falsas perfeições deteriorava-se e apodrecia,revelando a mais nua,fria e cruel realidade.E a encarando,meus olhos secavam,e de tão secos,sangravam.Junto aos meus pés,o chão saía do lugar,movendo o meu 'eu' e me derrubando,me mudando por inteiro,sé é que algum dia existiu algo aqui para se mover.
Abri meus 'novos caminhos' na ponta da lâmina,que cravava minha pele com meu próprio sangue em sacrifício.
E esses novos caminhos apontavam para o 'além-nada'.
e o silêncio.
MEU silêncio.